Apresentação  

La Diva

Natércia Lopes troca facilmente o relógio pelo metrônomo. Fora das partituras, parece ignorar o tempo. Talvez o tema. Confunde datas - especialmente as que possam levar a um cálculo aproximado de seu nascimento. E dedica nenhuma atenção ao registro formal de sua rica trajetória artística. As lembranças bailam em sua memória com a mesma velocidade com que se volatilizam. Mas, quando a cortina se abre, seus olhos se iluminam e sua alma desintegra-se em uma sinfonia de tons. A música é a sua vida! Nunca perde de vista ritmo e compasso. Seu coração bate em claves, ao andamento do estímulo recebido: moderato, diante de qualquer forma de preconceito; prestíssimo, se a pauta é a arte. Mas não qualquer arte: Natércia nasceu para cantar. E surpreender! Divina e profana; celeste e mundana... Voluptuosa e angelical.

Facilmente a confundimos com suas personagens. E ela faz pouca questão de separar os dois mundos, protagonizando cenas perturbadoras - dentro e fora dos palcos. Por isso, inspira amor e ódio; mas, nunca a indiferença. Tempos fortes parecem predominantes em sua sonoridade existencial. Sua irreverência, como artista ou pessoa, assusta tanto quanto entorpece, embriaga e encanta. Talvez isso defina a alquimia de uma personalidade que mistura vida e ópera.

É como se lhe fosse possível, subitamente, despir-se do papel de mãe e dona-de-casa, para trajar um figurino impensável, na pele da sedutora Carmen ou da sofrida Mimi. E nem é preciso estar em um teatro para isso. Um jogo de luz e uma rápida troca de cenários - ou humor, são o suficiente para que Bizet e Puccini se desfaçam no ar, surgindo a Natércia, em seu instantâneo retorno à cena real - e à tona. A artista vive alternando mergulhos em universos reais e fantásticos, entre os quais transita, propositalmente.

Sabe que, em realidade, vivemos à beira do mesmo lago em que se mira Narciso e onde morre o Cisne. E que vestir o branco ou o negro pode não ser uma questão de escolha. Sequer fazer parte do script. Mas, entre a sanidade tola e a loucura sábia, Natércia fez a opção de quem acha pouco intensa a emoção subjacente a qualquer forma de estabilidade. E sempre se mostrou disposta a pagar o preço dessa escolha. Doce e explosiva. Técnica e emocional. Só se deixa conduzir por maestros. Mesmo assim se a virtuose for o combustível da regência. Do contrário, salta do palco. É a expressão maior do canto lírico capixaba, estando incrustada na constelação das mais brilhantes sopranos brasileiras. Entre talentos europeus e americanos, de projeção internacional, foi a voz escolhida pela Dirigente da ArcelorMittal Foundation, Felicidad Crístobal, para estrelar, em Cannes, o aplaudido filme que lançou a entidade em escala mundial. Nasceu para o palco e para a fama. Como recitalista e solista, apresentou-se na Europa - especificamente, na Itália, na Polônia e em Portugal. Mas é no Brasil, e, especialmente, no Espírito Santo, onde fez seu ninho. Trocou o "Alla Scala Di Milano" - onde aprimorou seu canto - pelo "Theatro Carlos Gomes" - por um amor inexplicável a um Estado que pouco retribuiu o presente que os deuses lhe deram. Mas, é tempo de nos redimir. Em nosso primeiro jantar, quando lhe propusemos a presente homenagem, um misto de gratidão e humildade descortinou uma outra face do mito: a simplicidade. Como um diamante, que mal se dá conta de tantas faces e de sua preciosidade, Natércia é manifestação do uno em fartos múltiplos. É a nossa Diva! Uma mestra de outra arte, Mônica Debbané, não poderia ter sintetizado melhor o título com que identificou o belo design que criou para o CD e o Concerto Lírico: "La Diva. La Vita."

Em essência, Natércia é vida! Sonora e pulsante! Temos um prazer muito grande de nos unir aos demais elos que materializaram este sonho, para enfatizar a importância desse ícone, eternizando seu canto no disco "La Diva. La Vita", inaugurando este website e oferecendo à sociedade capixaba o espetáculo de mesmo nome. Foi assim com nosso violonista maior, Maurício de Oliveira e com a Musa do Jazz - Ester Mazzi. Orgânica e integrada por interfaces capilares ao tecido social que a acolhe, não seria possível à ArcelorMittal Tubarão deixar de lançar luz sobre os 40 anos de carreira do nosso maior talento do canto lírico, Natércia Lopes. Tempo este, contado por metrônomo - e nunca pelo relógio, claro.


Espírito Santo, em qualquer tempo.

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